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Terceirização na saúde custa mais caro e precariza os trabalhadores que sustentam o SUS

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Fonte: Freepik

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Vanessa Klimkowski Argoud
farmacêutica, na Farmácia de Medicamentos Especiais. Militante do coletivo feminista classista Alexandra Kollontai e do coletivo Barricadas Abrem Caminhos - Autora convidada.

Contratação direta de trabalhadores que já atuam nas unidades, combinada com novos concursos públicos, é uma alternativa mais justa e eficiente para o sistema de saúde.

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A terceirização tornou-se, nas últimas décadas, uma das principais formas de organização do trabalho no setor público brasileiro. Frequentemente apresentada como solução para reduzir custos e aumentar a eficiência administrativa, ela passou a ocupar um espaço crescente na gestão de serviços públicos. No entanto, quando observamos o funcionamento concreto desse modelo nas unidades de saúde, o discurso da economia raramente se confirma.

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Nas unidades de saúde e farmácias do município de Porto Alegre, uma parte significativa dos trabalhadores atua hoje por meio de empresas terceirizadas. No cotidiano do serviço, os efeitos desse modelo são conhecidos por quem trabalha e por quem depende do atendimento: equipes incompletas, postos de trabalho que não são preenchidos, alta rotatividade e sobrecarga para os profissionais que permanecem nas unidades.

A precarização também se expressa em situações recorrentes como atrasos no pagamento de salários, vale-alimentação e vale-transporte. Esses problemas não são meros detalhes administrativos. Eles impactam diretamente a vida dos trabalhadores e desorganizam o funcionamento dos serviços. Quando equipes estão incompletas ou vínculos de trabalho são instáveis, a qualidade do atendimento prestado à população inevitavelmente se deteriora.

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Um dos principais argumentos utilizados para justificar a terceirização é a suposta redução de custos para o poder público. No entanto, análises de contratos na área da saúde mostram que essa premissa nem sempre corresponde à realidade. Um estudo (PINHEIRO, 2025) recente comparou os custos da terceirização com a contratação direta e indicou que o modelo terceirizado pode custar cerca de 27,7% mais caro. No caso analisado, o gasto mensal com trabalhadores terceirizados chega a aproximadamente R$ 982 mil, enquanto a contratação direta para as mesmas funções teria um custo estimado em torno de R$ 710 mil. A diferença ultrapassa R$ 272 mil por mês — mais de R$ 3,2 milhões por ano.

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Esses números revelam uma contradição importante. A terceirização não reduz custos, não melhora o serviço e ainda precariza as relações de trabalho. Quem se beneficia desse arranjo são principalmente as empresas que intermediam a contratação da força de trabalho. Parte significativa dos recursos públicos destinados ao funcionamento do sistema de saúde acaba sendo convertida em margem de lucro para empresários que pouco ou nada têm a ver com a prestação direta do serviço.

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Na prática, trata-se de um modelo em que dinheiro público financia a intermediação privada do trabalho, enquanto os profissionais que garantem o funcionamento cotidiano das unidades convivem com salários baixos, instabilidade contratual e atrasos frequentes em direitos básicos.

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Diante desse cenário, cresce entre trabalhadores da saúde a defesa de uma alternativa que combine duas medidas: a contratação direta daqueles que já atuam nas unidades e a realização de concursos públicos para recompor e ampliar as equipes. Essa proposta parte de um reconhecimento simples: são esses trabalhadores que garantem diariamente o funcionamento dos serviços de saúde.

 

Embora essa posição não seja consensual entre todos os servidores públicos, ela busca enfrentar um problema concreto. Encerrar a terceirização sem considerar o destino desses trabalhadores pode significar, na prática, aceitar demissões em massa de pessoas que hoje realizam atividades essenciais no sistema de saúde.

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Experiências anteriores mostram que caminhos desse tipo são possíveis. Em Porto Alegre, por exemplo, os Agentes Comunitários de Saúde que atuavam no antigo Instituto Municipal de Estratégia de Saúde da Família passaram posteriormente a ser contratados diretamente pelo município.

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A forma como o trabalho é organizado no sistema público de saúde não é apenas uma questão administrativa. Trata-se de uma escolha política que define se o dinheiro público será utilizado para fortalecer o Sistema Único de Saúde ou para alimentar a intermediação de empresas privadas. Valorizar quem já sustenta o funcionamento cotidiano das unidades é também uma condição fundamental para garantir um SUS mais estável, mais eficiente e mais comprometido com as necessidades da população.

REFERÊNCIA

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PINHEIRO, Ana Lucia Reichelt Ely Pitta; BALDO, Anaura; NARDI, Gustavo; CASSALHA, Milene; FAGUNDES, Shayanne. Pitch de soluções financeiras: avaliação do custo-benefício da terceirização da mão de obra de auxiliares de farmácia pela Prefeitura de Porto Alegre em comparação com execução da atividade por servidores públicos. Orientadora:  Renata Gianotti. 2025 13p.   Trabalho acadêmico – Unisinos, Porto Alegre, 2025. 

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Artigo | Revista da Astec, Ano v. 26, n. 55, junho de 2026

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