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Isolamento social e home office: mudanças e adaptações em época de Coronavírus

Atualizado: 29 de Set de 2020

Viver no confinamento e em situação de isolamento social pode não ser algo fácil. Nós, enquanto seres humanos, somos sujeitos que, desde os primeiros tempos no mundo, nos situamos a partir de referências que se dão no enlace com o outro. Somos seres, cujas condições de existir se fazem a partir das relações que são tecidas e que também tecemos de forma coletiva.


Eduarda Xavier Lima e Silva

eduardaxavierls@gmail.com

Psicóloga. CRP nº 07/29276.


Julia Castilhos Flores Cruz

julicacruz@gmail.com

Psicóloga. CRP nº 07/19672.


Luisa Pellegrini Comerlato

luisapellegrinicomerlato@gmail.com

Psicóloga. CRP nº 07/29302.




O novo tempo tem exigido reinvenções dos nossos modos de nos comunicarmos com os outros e de estarmos com nós mesmos. Nesse sentido, é um período em que dificuldades emocionais podem surgir ou mostrarem-se de forma mais acentuada. Enquanto psicólogas, temos apostado na modalidade de atendimento online, demarcando a importância do prosseguimento dos pacientes que já vinham em acompanhamento, bem como acolhendo novos casos que têm buscado um espaço de escuta na forma totalmente virtual.


Foto Ilustrativa/Freepik

Temos escutado diversos relatos que descrevem sintomas associados a essa vivência. Dentre eles, aparecem com maior frequência ansiedade, dificuldades no sono, irritabilidade nas relações familiares, falta de disposição e ânimo para qualquer atividade, bem como maiores dificuldades de concentração no trabalho em home office e dificuldades de separação do tempo de trabalhar com o tempo importante para si (podendo gerar sobrecargas ou mesmo imobilidades). Sensação de solidão e tristeza, medo de morrer e algo de um estado de angústia, daquilo que não sabemos descrever ou dar nome, também estão presentes nesses relatos.


Em uma entrevista à BBC Brasil, o psicanalista Christian Dunker menciona que em nossa cultura uma das formas de castigo é o estar sozinho e restrito a um ambiente – desde os pais que mandam o filho “ir para o quarto pensar”, às penas de prisão. O imperativo de permanecer em casa atinge todos nós, mesmo aqueles que continuam trabalhando presencialmente. Estamos atravessados pela impossibilidade de manter a rotina, pelo fechamento de inúmeros espaços sociais.


A restrição à circulação pode nos atingir como uma punição, tornando a compreensão da necessidade dessa medida mais difícil. Com isso, também ocorrem perdas dos momentos de prazer relativos ao estar em casa. Muitos que desfrutavam do seu tempo no espaço de moradia têm se surpreendido com os incômodos produzidos pela necessidade da quarentena. Destacamos que a possibilidade de negar a gravidade da situação frente a este momento de instabilidade também se coloca como uma saída, uma espécie de defesa psíquica frente à dificuldade de lidar com os sentimentos trazidos por este momento.


Os sentimentos descritos até aqui podem se intensificar, especialmente, por esse ser um momento sem precedentes na história recente e que impõe uma imprevisibilidade sobre o impacto no nosso futuro particular e enquanto sociedade. Além disso, um bombardeio de notícias traça os efeitos da pandemia em tempo real e preveem o que irá acontecer, tanto em termos de saúde, como de economia. Importante situarmos também que o acesso a dados confiáveis pode contribuir com a informação coletiva e incentivar a implementação de medidas protetivas no enfrentamento dessa pandemia, o que exige parcimônia, visto que o mesmo pode contribuir com compulsões e compartilhamentos sem reflexões ou intensificar as tentativas de negar a gravidade da situação.


A tecnologia dispõe de recursos que permitem que diversas tarefas possam ser desenvolvidas em casa. Assim, muitos de nós têm a possibilidade de permanecer trabalhando e nos resguardando em isolamento social. No último mês, o home office se transformou de experiência de uma pequena parcela dos trabalhadores a uma prática recomendada e até exigida a todos que assim possam dar seguimento às suas atividades. Sendo essa uma modalidade de trabalho incomum para grande parte das pessoas, muitos encontram dificuldades em adaptar suas tarefas “de escritório” ao ambiente familiar, somado ao contexto de ter que lidar com os efeitos da pandemia, descritos anteriormente. Um dos desafios dessa modalidade de trabalho, assim como apontado por Dunker (2020), em uma matéria do Jornal da USP, é que ela exige reorganização e, ao mesmo tempo, os apaziguadores que encontramos e produzimos no ambiente de trabalho presencial – como as pausas para descanso e os momentos de troca com os colegas – são suspensos.


A restrição à circulação rompe ou modifica pequenos movimentos inerentes à nossa rotina. Para aqueles que estão em home office, não há mais o tempo de deslocamento até o trabalho, e a simples ida ao supermercado se torna um evento. Essa questão recai sobre o espaço da casa com efeitos de sobreposição, esse se torna o local onde se faz praticamente tudo e se permanece todo o tempo. Tal aglomeração de tarefas no mesmo lugar borra as fronteiras e dificulta a organização e as separações necessárias à rotina. Uma sensação de que tudo é a mesma coisa pode provocar a impossibilidade de se focar no trabalho ou de interrompê-lo.

Nessa direção, é essencial estabelecer marcos de descontinuidade, que irão tecendo uma nova rotina com as separações necessárias ao enlace de suas atividades profissionais e pessoais. Então, ao falarmos da prática em home office, destacamos dois aspectos que precisam estar articulados e organizados: o tempo e o espaço.


Estabeleça horários: seja para o trabalho, para o lazer ou para sua alimentação. Esta definição de início, intervalos e término é necessária. Além das atividades laborais, faça pausas e invista momentos de suspensão psíquica, descansando e mantendo atividades prazerosas;


Organize seu espaço físico: o local de trabalho deve ser delimitado mesmo que não seja possível restringi-lo a um cômodo. Cabe ressaltar que a busca de privacidade em meio ao isolamento, pode ser desafiante, especialmente, em algumas realidades sociais, e pode exigir negociações e concessões;


Comunique suas necessidades às pessoas com quem você divide o espaço de moradia. Há aqui um desafio especial aos que vivem com crianças, que além de exigirem uma atenção especial, sofrem de seu próprio modo para lidar com esse momento. Estabeleça uma rotina também para os pequenos, com espaços que intercalem atividades e brincadeiras e os inclua nas atividades da casa. Além disso, é importante conversar sobre o que estamos vivendo, esclarecendo a necessidade de eles respeitarem o tempo de trabalho dos adultos, na medida do possível. Somado a isso algumas flexibilizações se mostram essenciais, no tempo do momento de lazer, como deixá-los dormir até mais tarde, brincar e desenhar de forma livre;


Crie uma rotina: busque adaptar os hábitos que você tinha antes da quarentena a essa nova realidade, como, por exemplo, vestir-se para trabalhar e manter seus horários cotidianos.


Importante sublinhar que esses momentos de descontinuidade que estabelecem uma nova estrutura da rotina são singulares e cada um irá traçá-los em uma busca particular do que faz mais sentido para si. Além disso, apesar do foco desse escrito estar nas adaptações ao home office, essas indicações também auxiliam a vivência do isolamento social de uma forma mais ampla. Ou seja, enfatizamos a importância de atravessarmos esse momento de forma compartilhada, pois a preservação dos laços tem função importante em tempos de isolamento social.


Este texto teve a intenção de compartilhar nossas reflexões acerca do que estamos vivendo e colocar em perspectiva algumas práticas possíveis. Nesse sentido, um espaço de escuta pode ser fundamental para lidar com os sentimentos desse momento. Saber sobre si pode ser uma brecha para atravessar a ausência de previsibilidade, bem como uma forma de sustentar esse período, conhecendo o que disso nos toca coletivamente e o que diz de nós enquanto sujeitos, em nossa história particular.


Gostaríamos de finalizar este escrito, pontuando que a pandemia denuncia a estrutura social em que vivemos, em que há condições de privilégio que são demarcadas por recortes sociais como, por exemplo, de gênero, classe e raça. Na intersecção de gênero, podemos situar as demandas de filhos e tarefas domésticas, que podem gerar sofrimentos e sobrecargas às mulheres – que, em sua maioria, já se ocupam disso diariamente, principalmente, mulheres negras. Com relação à raça, o campo da branquitude demarca uma posição de privilégio e de acesso a serviços, que, historicamente, a população negra já não possui. Ainda, o recorte de classe denuncia os serviços essenciais para o funcionamento social e põe em jogo as relações e condições de trabalho precarizadas.


Nessa mesma direção, ressaltamos que o home office não é uma prática que pode ser adaptada em todas formas de trabalho, configurando-se também como posição de privilégio de uma camada da nossa sociedade. A pandemia do Coronavírus é momento para que, além do plano do um a um, possamos, em termos de políticas públicas, produzir um comum, possibilitando a construção de uma coletividade que dê conta das diferenças e promova a equidade.



REFERÊNCIAS


DUNKER, C. Como reorganizar a rotina pode ajudar sua saúde psíquica na quarentena. [Entrevista concedida a] Valéria Dias. Jornal da USP: São Paulo, 20.03.2020. Disponível em: https://jornal.usp.br/ciencias/como-reorganizar-a-rotina-pode-ajudar-sua-saude-psiquica-na-quarentena . Acesso em: 12 abr. 2020.

DUNKER, C. Coronavírus: alguns sentem tanto medo que precisam negar o que está acontecendo, diz psicanalista. [Entrevista concedida a] Leandro Machado. News Brasil: BBC, s.l., 4 abril 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-52160230?at_custom2=twitter&at_custom4=1089781%204-7807-11EA-B805-DF20933C408C&at_custom3=BBC+Brasil&at_medium=custom7&at_c%20ustom1=%5Bpost+type%5D&at_campaign=64&fbclid=IwAR0HbiSBbRqIDW8MGRY-xs0%20LRJeFW1zVhChE_Mdlye0kohVIm-35zYweZcw . Acesso em: 12 abr. 2020.




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