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Evidências e direções de um projeto de desmonte da Rede Municipal de Educação de Porto Alegre

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Fonte: Divulgação Simpa

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Ezequiel Carvalho Viapiana
Professor de música da rede municipal de Porto Alegre há 12 anos. Especialista em Gestão da Educação e mestre em Educação Musical. Militante do coletivo Alicerce e diretor de comunicações do Simpa - Autor convidado.

A educação pública municipal de Porto Alegre tem sido atravessada, ao longo dos últimos dez anos (2016–2026), por medidas que, analisadas em conjunto, configuram um projeto de desmonte do direito à educação. Não se trata de ações isoladas, mas de um processo sustentado em três eixos articulados: precarização das condições materiais, reconfiguração pedagógica orientada por lógicas gerenciais e desvalorização sistemática dos profissionais da educação.

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Relatórios educacionais apontam fenômenos como “mercantilização” e “parceirização” como escolhas políticas alinhadas a interesses de mercado. Notas da Rede Escola Pública e Universidade (REPU) evidenciam, em São Paulo, a transferência de recursos públicos para empresas de gestão e o aprofundamento das desigualdades (REPU, 2024). A Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação (ANPEd) alerta que parcerias público-privadas (PPPs) passam a incidir sobre o projeto pedagógico, subordinando-o a interesses privados (ANPEd, 2024). Essas tendências ajudam a compreender o caso de Porto Alegre que, com suas especificidades, se insere nesse movimento mais amplo.

No plano estrutural, relatos do Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (Simpa) denunciam obras inacabadas, redes elétricas deficientes e ambientes inadequados ao desenvolvimento das atividades escolares (Simpa, 2026). A recorrência desses problemas evidencia a ausência de uma política consistente de manutenção da rede. Ao longo da década, a fragilização de setores públicos responsáveis pela zeladoria e pelos reparos — historicamente compostos por trabalhadores/as concursados/as — contribuiu para esse cenário, posteriormente utilizado como justificativa para a transferência dessas funções à iniciativa privada. O Projeto Político-Pedagógico Escola Bem-Cuidada, proposto pela gestão do prefeito Sebastião Melo, prevê cerca de R$ 4,3 bilhões em recursos públicos ao longo de 20 anos (Prefeitura, 2024).

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A precarização estrutural articula-se com a insuficiência de profissionais. A falta de docentes em áreas específicas tem levado ao improviso, com atuação fora da área de formação. Soma-se a isso o fechamento de turmas, o esvaziamento de projetos de contraturno e a inviabilização de espaços como os Laboratórios de Aprendizagem. Nesse contexto, amplia-se a presença de instituições privadas na oferta de ações pedagógicas. A contratação do Instituto Alicerce, no valor de R$ 75 milhões em recursos públicos, evidencia a transferência de dimensões centrais do processo educativo para entes privados (Tribunal, 2025).

No campo pedagógico, observa-se um movimento de restrição da autonomia escolar. A extinção da eleição direta para direções, promovida pela gestão Melo, centraliza decisões e enfraquece a gestão democrática (Brasil de Fato, 2026). As mudanças curriculares priorizam componentes avaliados em larga escala, como Língua Portuguesa e Matemática, em detrimento de áreas fundamentais à formação crítica, como Artes, Filosofia, Geografia e História. Trata-se de uma concepção orientada por indicadores e metas, que reduz o processo educativo a resultados mensuráveis.

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Quanto à valorização profissional, o Simpa aponta defasagem salarial de 33,40%, indicando perdas reais significativas (Simpa, 2025). A ausência de avanços na data-base e o não cumprimento de direitos, como as progressões funcionais, reforçam um cenário de desvalorização sistemática. A precarização das condições de trabalho impacta o engajamento e contribui para o adoecimento docente, fenômeno também observado em nível nacional (Saúde, 2026).

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Esses elementos evidenciam não uma soma de problemas, mas um projeto político que combina precarização, transferência de recursos públicos ao setor privado e restrição da participação democrática. Diante disso, a organização coletiva — em sindicatos, associações e comunidades escolares — torna-se condição essencial para a defesa da educação pública como direito social e para o enfrentamento desse processo.

REFERÊNCIAS

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ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO (ANPEd).  Nota contra a privatização das escolas públicas estaduais no Paraná. Rio de Janeiro (RJ), 2024. Disponível em: https://anped.org.br/nota-contra-a-privatizacao-das-escolas-publicas-estaduais-no-parana/. Acesso em: 6 abr. 2026.

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COM o fim da gestão democrática nas escolas, prefeitura de Porto Alegre destitui diretores aprovados. Brasil de Fato, 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/01/13/com-o-fim-da-gestao-democratica-nas-escolas-prefeitura-de-porto-alegre-destitui-diretores-aprovados/. Acesso em: 5 abr. 2026.

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GIROTTO, Eduardo Donizeti; PASSOS, Felipe Garcia; OLIVEIRA, João Victor Pavesi de; JACOMINI, Márcia Aparecida. Nota técnica: Privatização de escolas da rede estadual de São Paulo: Ampliação das desigualdades e riscos ao direito à educação. São Paulo (SP):Rede Escola Pública e Universidade, 2024. 26 p. Disponível em: https://www.repu.com.br/_files/ugd/9cce30_62e457a4135840e88a632de509f03018.pdf. Acesso em: 5 abr. 2026.

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PREFEITURA de Porto Alegre lança PPP Escola Bem-Cuidada. Porto Alegre (RS): Rádio Guaíba, 21.08.2025. Disponível em: https://guaiba.com.br/prefeitura-de-porto-alegre-lanca-ppp-escola-bem-cuidada/. Acesso em: 5 abr. 2026.

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SAÚDE mental de professores preocupa especialistas. Revista Educação: São Paulo, 2026. Disponível em: https://revistaeducacao.com.br/2026/03/17/saude-mental-geduc/. Acesso em: 6 abr. 2026.

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SINDICATO DOS MUNICIPÁRIOS DE PORTO ALEGRE (Simpa). Assembleia da categoria aprova pauta da data-base 2025. Porto Alegre: Simpa, 2025. Disponível em: https://simpa.org.br/assembleia-geral-da-categoria-municiparia-aprova-pauta-da-data-base-2025-e-convoca-dia-greve-em-20-de-marco/. Acesso em: 4 abr. 2026.

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SINDICATO DOS MUNICIPÁRIOS DE PORTO ALEGRE (Simpa). Educação denuncia abandono das escolas municipais. Porto Alegre: Simpa, 2026. Disponível em: https://simpa.org.br/educacao-coloca-o-bloco-na-rua-e-denuncia-o-abandono-das-escolas-municipais/. Acesso em: 4 abr. 2026.

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TRIBUNAL de Contas suspende contrato com Instituto Alicerce.  Sul21: Porto Alegre, 6 de outubro de 2025.  Disponível em: https://sul21.com.br/noticias/educacao/2025/10/tribunal-de-contas-suspende-contrato-da-prefeitura-de-porto-alegre-com-instituto-alicerce/. Acesso em: 6 abr. 2026.

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Artigo | Revista da Astec, Ano v. 26, n. 55, junho de 2026

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