ENTREVISTA

Vacina é o que (quase) todos queremos, e rápido! 

e-mail: jcunha58@gmail.comJuarez Cunha 

Médico, presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBIm), CREMERS 11.92

Provavelmente, nunca tantas pessoas tiveram o mesmo desejo, ao mesmo tempo, como ocorre agora, com tantos seres humanos ao redor do planeta sonhando com a proteção contra a covid-19. A vacina é o que (quase) todos queremos, e rápido! Quase todos, porque, por diversas razões, há quem tenha tanto ou mais medo do imunizante do que do novo coronavírus. Para esclarecer dúvidas e polêmicas em torno da vacinação, a Revista da Astec conversou com o médico Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações SBIm, especialista em pediatria e intensivismo pediátrico pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre, membro da Coordenadoria Geral de Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura Municipal de Porto Alegre (CGVS/SMS/PMPA).

Foto ilustrativa/Freepik

- O que é uma vacina e como age?

Vacinas são produtos imunobiológicos, e agem mimetizando a doença natural. A gente aplica a vacina com as plataformas atuais, que são as vacinas inativadas e as atenuadas, e o organismo vai produzir a resposta imune. Essa resposta imune vai fazer com que o organismo crie os anticorpos e esses anticorpos ficam “de prontidão”. Quando a pessoa tiver contato com aquela doença, com aquele vírus ou aquela bactéria selvagem, já estará protegida. É como se a pessoa já tivesse um exército pronto para combater aquele micro-organismo que pode causar determinada doença.

- Para que a vacina seja eficaz e segura, o que é preciso?

A vacina, como qualquer outro medicamento, tem que passar por uma série de fases de pesquisa, que vão desde as fases pré-clínicas, de laboratório, quando se faz uso de animais, até as fases 1, 2, 3, em humanos – que, por causa da covid, ficaram mais conhecidas. O número de pessoas testadas vai aumentando gradativamente, de acordo com a fase, e é dessa forma que são observadas a segurança e a eficácia das vacinas. Essas testagens são necessárias para que qualquer vacina ou medicamento seja liberado pelas agências reguladoras para utilização. É o caso da nossa Anvisa que, para liberar um produto, precisa que ele passe por todas essas etapas, a fim de comprovar sua segurança e a eficácia. Após a fase 3, tem, ainda, a fase 4, da Fármaco Vigilância, que ocorre depois da liberação, com a utilização do produto em grande escala, com a vigilância dos eventos adversos e de eficácia a longo prazo.

- Com a pandemia, é necessário ter agilidade no desenvolvimento de uma vacina. Como fica a questão segurança? Quais os riscos?

A pandemia modificou completamente todos os passos que se utilizava anteriormente. Com a emergência criada pela covid-19, com muitas pessoas doentes e muitas mortes, se justifica ter pesquisas que andem de forma mais acelerada, mas, qualquer vacina, independentemente da sua origem, só será liberada para utilização em grande escala com o aval dos órgãos regulatórios – no caso do Brasil, a Anvisa.  As vacinas em pesquisa, e algumas já em produção, têm demonstrado que são seguras e eficazes. Tomara que isso se confirme para todas, pois, quanto mais vacinas tivermos disponíveis, maior possibilidade de as pessoas poderem utilizar esse recurso – que é a principal estratégia de prevenção e promoção de saúde. Claro que é preciso ter cuidado com segurança, que não adianta nada ter uma vacina eficaz, se ela não for segura, como também não adianta ter uma vacina segura se não for eficaz.

- Na sua opinião, a estratégia do governo brasileiro em relação à pesquisa, produção e aquisição da vacina contra covid-19 está acertada?

É muito importante reforçar que a Ciência e a pesquisa no Brasil são fortes e nós temos que valorizá-las. As estratégias do governo brasileiro em relação à produção e aquisição das vacinas incorporadas ao Plano Nacional de Imunização (PNI) contemplam transferência de tecnologia. Isso possibilita autonomia de produção ao Brasil, como no caso da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e pelo laboratório britânico AstraZeneca que, aqui, será fabricada pela Fiocruz.

- O Brasil tem estrutura e tecnologia para a produção da vacina contra covid-19 em grande escala?

Primeiramente, vai depender da plataforma das vacinas que conseguirem chegar ao ponto de segurança e eficácia adequadas, porque, neste momento, nenhuma planta industrial brasileira tem capacidade de anteder toda a demanda. Por isso é importante que várias vacinas consigam atingir o nível de segurança e eficácia que tanto se quer. Mas, nosso País conta com um parque industrial de imunobiológico reconhecido mundialmente, tanto que várias das vacinas candidatas nos procuraram, não só porque a doença continua importante no País e para poder testar uma vacina, como, também, porque a gente tem possibilidade de produção. Butantan e BioManguinhos são bons exemplos. Temos uma estrutura muito boa, reconhecida mundialmente, capaz de funcionar muito bem a partir de parcerias em termos de tecnologia e insumos – uma boa posição no panorama mundial. É importante ressaltar que, atualmente, ninguém tem uma estrutura capaz de produzir essa quantidade – de um bilhão, dois bilhões, três bilhões de doses. Quando se pensa em toda a população do planeta, 7, 8 bilhões de pessoas, são números absurdos, gigantescos.

- As pessoas que já tiveram covid-19 também precisam receber a vacina?

É uma boa pergunta para a qual a gente ainda não tem resposta. Nós temos pouco tempo de doença. Tem muita coisa que a gente ainda está aprendendo.  Há relatos de pessoas que tiveram a doença pela segunda vez. Por enquanto, as possibilidades de fazer vacina ainda são restritas. Quando tivermos um percentual importante de vacinas, muitas pessoas já terão tido contato com a doença, tanto sintomáticos como assintomáticos, e, nesses casos, não saberemos, porque não foram testadas. O ideal seria que todos fossem testados, mas, como isso não é possível, a resposta sobre as pessoas que tiveram a doença precisarão fazer a vacina ficará a cargo do tempo. Talvez a covid-19 venha a se comportar como atualmente se comporta a gripe, que todos os anos, por mutações dos vírus, exige que as pessoas repitam a vacina. Por enquanto, porém, nem isso a gente sabe ainda, em relação à vacina de covid.

- Quando tivermos vacina disponível, o que é fundamental para o sucesso da campanha de imunização contra a covid-19?

Informação e comunicação serão fundamentais. Infelizmente, temos tido desinformação e embate político, o que não contribui em absolutamente nada. Pelo contrário, só prejudica ainda mais as nossas coberturas vacinais. Mesmo que o embate seja sobre vacinas contra a covid-19, isso vai impactar negativamente naquelas pessoas que já hesitam em aplicar as vacinas de rotina. Se elas já têm alguma dúvida sobre a segurança, com a desinformação, fake news, embates, discussões e grupos antivacinas, alimenta ainda mais essa desconfiança. O reflexo negativo que isso pode causar nos preocupa muito, não só em relação à covid-19, como para todo o programa utilizado há cerca de 50 anos, de vacinas que a gente sabe que são seguras e eficazes e estão aí disponíveis para a nossa população.

 

- Teremos a vacina contra covid-19 disponível na rede pública e privada?

Em um primeiro momento, pelo menos no primeiro ano, será bem difícil estar disponível na rede privada. Imagino que todos os países deverão utilizar as vacinas na rede pública, inicialmente, onde há um número bastante importante de pessoas a serem vacinadas.

- Mesmo tendo no Brasil um Programa Nacional de Imunizações reconhecido internacionalmente por que as coberturas vacinais em geral estão tão baixas?

Esse é um fenômeno que vem sendo observado há algum tempo. O próprio Ministério da Saúde, há três anos, já chamava a atenção sobre isso. A situação é mundial, não é só no Brasil. Mas, o que que estamos vendo aqui é que, nos últimos anos, em especial 2019, nenhuma das vacinas aplicadas no primeiro ano de vida conseguiu atingir as metas de coberturas vacinais. Tudo se resume a uma palavra, que eu até mencionei na resposta anterior: hesitação. A hesitação é definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como uma das dez grandes ameaças à saúde pública mundial. Qual é o significado? É termos uma vacina recomendada disponível e, mesmo assim, ela não é aplicada ou é aplicada com atraso. E as causas da hesitação são múltiplas. Passando por três Cs – confiança, complacência, conveniência. Sendo que, embora o brasileiro confie muito em vacina, essa confiança tem declinado. Além do medo dos eventos adversos e em relação à eficácia e à segurança na utilização das vacinas, há também a falta de confiança nas instituições públicas que apresentam problemas; no governo; no Ministério da Saúde; e nos funcionários públicos, que estão sendo muito desacreditados. Tudo isso abala a confiança das pessoas na vacina. Já no C da complacência, o que mais chama a atenção é a falsa sensação de segurança que as pessoas têm de que algumas doenças foram eliminadas, erradicadas ou controladas. Erradicada só a varíola; eliminadas, pólio, rubéola e sarampo, que agora voltou. As pessoas conhecem pouco essas doenças. O último caso de pólio foi em 1989. Então, os pais de 30, 40 anos nunca viram pólio, nem conhecem, nem os profissionais da saúde conhecem. Esse desconhecimento de uma doença que foi muito importante, que se não fosse a vacina calcula-se que teria paralisado cerca de 10 milhões de pessoas no mundo, sem contar a quantidade de pessoas que teriam morrido, gera essa falsa sensação de segurança, quando não se conhece a doença e, por isso, se imagina que ela não exista e que, não existindo, não é necessário vacinar. Os especialistas acreditam que esse seja um dos principais motivos a contribuir com a baixa nas coberturas vacinais, e que entra no C de complacência. Há, ainda, a conveniência, que se refere ao horário de funcionamento das unidades e ao calendário oferecido gratuitamente no Brasil que, embora seja o mais completo do mundo, é muito complexo. Enquanto na década de 1970, quando começou o PNI, tinha-se a BCG, pólio, tríplice bacteriana e sarampo, agora tem-se 15 vacinas na infância; oito, na adolescência; e cinco para adultos idosos. É maravilhoso contar com esse número de vacinas na rede pública, mas, ao mesmo tempo, o calendário torna-se muito complexo. Entra também na conveniência toda a estrutura do posto de saúde, a forma de atendimento, a falta de vacina que também ocorre com alguma frequência. Resumindo, os motivos das baixas coberturas vacinais são multifatoriais. Para completar, em 2020, nós temos a pandemia, o isolamento social preconizado, o distanciamento, o medo das pessoas de irem nas unidades de saúde, que são também os locais para os quais de dirige a nossa população que está com algum problema de saúde. Tudo isso contribuiu para uma queda muito acentuada do número de indivíduos imunizados. Assim, se era ruim, até o ano passado, contarmos uma cobertura de 85, 90%, quando se queria 95%, atualmente, se está ao redor de 50, 60%. Isso como média significa que tem locais com coberturas muito baixas. E quais são os riscos? Os riscos são o retorno das doenças, como a gente já conhece, como o sarampo. Tivemos certificado de eliminação, em 2016, e, a partir de 2018, a doença retornou. Dez mil casos, em 2018. Vinte mil casos, em 2019. E, em 2020, mais de oito mil casos notificados, em 21 estados do País, com sete óbitos, até novembro. Poliomielite é uma doença que continua existindo em outros lugares do mundo e pode voltar no Brasil. Esses são apenas exemplos dos riscos que a nossa população corre pelas baixas coberturas vacinais.

- A população entende os benefícios da vacinação?

A gente tem discutido muito isso - as vacinas, o valor das vacinas. Se sabe que vacinar é a melhor forma de promoção de saúde, de prevenção de doenças e não tem nenhuma outra estratégia, nenhuma outra ferramenta de saúde pública que tenha tido o sucesso que a vacinação teve. Então, nós temos que estimular isso e mostrar para a população quais são os riscos de não se vacinar, em especial para as crianças.

- Enquanto não temos a vacina para todos, o que é importante salientar no enfrentamento contra o coronavírus?

A única coisa que se tem são as medidas não farmacológicas: lavagem de mãos, distanciamento entre as pessoas e não aglomeração, além do uso de máscaras, que é proteção não só para o indivíduo, como para a coletividade.  Infelizmente, tem gente que não acredita, mas as medidas não farmacológicas ainda vão perdurar por muito tempo, no nosso meio. De todas as medicações que têm sido utilizadas, tanto na prevenção, como no tratamento precoce, ou mesmo no tratamento de covid-19, nenhuma no mundo demonstrou ser eficaz. O que temos até agora para tratamento são as medicações para sintomas e, quando o paciente vai para intensivismo, são utilizadas outras medicações, mas, nenhuma específica para o vírus. Esse é um ponto que tem que chamar a atenção das pessoas: o que comprovadamente funciona como prevenção são as medidas não farmacológicas. Nada além disso, em nenhum lugar do mundo, tem comprovação.